Cenário setorial Energia

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Cenário setorial Energia

Estudo da Macroplan indica que receita gerada por royalties e participações especiais deve ser usada para diversificar as atividades econômicas e contribuir para o bem-estar social.

Nos 80 anos da descoberta de petróleo no país, que foi num poço em terra, em Lobato, bairro na periferia de Salvador, a indústria de óleo e gás volta hoje suas atenções para o desafio de alavancar a produção nas águas profundas do pré-sal. Em fase de recuperação, a cadeia do setor mergulhou em grave crise depois que vieram à tona, em 2014, os escândalos de corrupção na Petrobras revelados pela Operação Lava-Jato.

A turbulência teve forte impacto na economia, com corte de vagas, cancelamento de encomendas e negócios fechados. Para cidades dependentes da indústria, restou a lição de que a receita gerada por royalties e participações especiais deve ser usada para diversificar as atividades econômicas e contribuir para o bem-estar social.

Para a Petrobras, o caminho a partir da crise foi rever seu modelo de atuação. A estatal passou a priorizar atividades estratégicas e apostar em parcerias para fazer frente ao desafio tecnológico e financeiro de explorar petróleo a mais de 300 quilômetros da costa. Neste cenário, a companhia começou a se desfazer de projetos que não fazem mais sentido economicamente, como campos de petróleo em terra. É com estas áreas que o setor espera fortalecer o mercado de pequenas e médias empresas

Para as gigantes, todos as atenções este ano estão voltadas para o megaleilão do pré-sal, com perspectiva de arrecadar até R$ 100 bilhões. E não são só as petroleiras que estão de olho. Diante da crise fiscal, os estados pleiteiam parte das receitas para ajudar a colocar as contas em ordem.

Mesmo com um volume de produção no pré-sal muito superior ao que se registrava até então, as empresas já começam a se preparar para um futuro em que o petróleo não será o único protagonista. As petroleiras querem ser percebidas como empresas de energia. Para manter sua relevância nas próximas décadas e atrair novas fontes de receitas, já iniciam uma transição para um novo cenário no qual fontes como eólica e solar terão mais espaço.

Lava-jato: a maior crise da história da estatal

Um amplo esquema de corrupção que envolvia empreiteiras, funcionários da Petrobras, operadores financeiros e agentes políticos foi revelado em 2014, com a Operação Lava-Jato. A estatal contratava empreiteiras em licitações fraudadas. As empresas combinavam entre si qual seria a vencedora da disputa e superfaturavam o valor da obra. Parte do dinheiro era desviado para pagar propina a antigos executivos que, em troca, aprovavam os contratos com irregularidades. O esquema envolveu grandes projetos, como a Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e o Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro).

O custo da corrupção para a Petrobras foi alto. Após a revelação do caso, a companhia teve quatro anos seguidos de perdas, foi obrigada a rever projetos e fechou, no ano passado, um acordo bilionário de US$ 2,95 bilhões com investidores nos Estados Unidos. Na Justiça, a estatal argumentou ter sido vítima da ação orquestrada de ex-empregados e defendeu que deveria ser ressarcida pelas perdas.

Os efeitos na economia causados pela crise se multiplicaram: fornecedores fecharam as portas, encomendas ao setor naval foram canceladas, com impacto no total de desempregados. Nas cidades dependentes de grandes projetos interrompidos, como Itaboraí, o cenário durante essa fase era de corte de vagas e aumento do número de escritórios, lojas e hotéis vazios.

Combinado a um cenário, na época, de queda no preço do petróleo, o Estado do Rio foi o mais afetado. A crise trouxe à tona o debate sobre as oportunidades desperdiçadas pelo estado, que não diversificou a economia nem transformou a renda do setor em desenvolvimento econômico e bem-estar social.

Síndrome do novo rico

O uso dos royalties e participações especiais é um retrato das escolhas equivocadas dos gestores públicos. Nos municípios produtores, recursos que pareciam infinitos no auge da produção da Bacia de Campos e dos altos preços do petróleo no mercado internacional foram usados para pagamento do funcionalismo e outras despesas correntes, além de ganhar destinos como uso de porcelanato em calçadas e financiamento de carnaval.

E a parte que caberia ao estado já foi empenhada junto ao Rioprevidência: uma arrecadação futura de R$ 128,5 bilhões, equivalente a 13 vezes o montante recebido em impostos em 2018.

Já em 2012, a consultoria Macroplan fez um levantamento do uso dos recursos dos royalties e mostrou a irresponsabilidade reinante na esmagadora maioria dos municípios. Claudio Porto, que coordenou o estudo, comenta que a experiência das cidades brasileiras mostra que elas não se beneficiaram da riqueza do petróleo. Ao contrário, são marcadas por alto custo de vida, favelização, insegurança, serviços públicos de má qualidade, indicadores sociais sofríveis e grande desperdício de dinheiro público:

— Esses absurdos resultam por um lado de uma mistura de regulação frouxa com fiscalização burocrática e por outro de uma tradição imediatista e assistencialista. Além disso, há a síndrome do novo rico. As corporações políticas, empresariais e funcionais criam aumentos salariais, novos empregos públicos, novos subsídios. Quando o preço do petróleo ou a produção cai, é tarde demais.

Em alguns casos, a lição foi aprendida. Desde a crise da Petrobras, algumas cidades fluminenses investiram na criação de um fundo para poupança de royalties e estabeleceram restrições ao financiamento de despesas de custeio com os recursos.

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Armazenamento terá um papel revolucionário no setor elétrico

Armazenamento terá um crescimento forte

Do Valor Econômico, por Roberto Rockman

O avanço do sol e do vento, fontes intermitentes ,na matriz elétrica deve resultas no crescimento de tecnologias de armazenamento de energia elétrica, um segmento ainda incipiente no Brasil. Desde junho, a AES Tietê iniciou o maior projeto piloto no segmento, ao instalar na usina hidrelétrica de Bariri (SP) uma bateria de lítio para armazenamento de 200 kW de energia. A bateria ficará conectada ao gerador auxiliar, que trabalha com a iluminação de hidrelétrica e bombeamento de máquinas. O Operador Nacional do Sistema (NOS), que busca avaliar os impactos do sistema na rede básica, acompanhará o teste, cujo investimento está em cerca de R$2,5 milhões.

“Essa tecnologia de armazenamento é uma tendência forte para o Brasil, principalmente com a interligação mais complexa com linhas de transmissão do Norte para o Sudeste. Ela pode ser usada como backup na transmissão ou na geração na ponta como alternativa para o consumidor reduzir a conta ou como alternativa a investimentos em linha de transmissão ou distribuição”, diz Ítalo Freitas, presidente da AES Tietê.

Para Freitas, em três a cinco anos, este nicho deverá ter um forte crescimento por conta dos múltiplos usos. Também pode ser usado para dar maior qualidade ao abastecimento para indústrias que têm necessidade de que as linhas operem sempre na mesma frequência e não sejam perturbadas com oscilações de redes.

Essas múltiplas funções permitem que a inovação seja oferecida a uma ampla gama de clientes, de comercializadoras a grandes consumidores e distribuidoras. “No caso do Brasil, essa expansão do segmento vai acontecer. Já foi estimada uma capacidade potencial de armazenamento de 95 GW, o suficiente para abastecer o País por uma hora; e a capacidade instalada já era 1 GW em 2016”, afirma Gilberto Figueira, líder empresarial da consultoria Macroplan.

Grandes empresas dos Estados Unidos e da Europa que fabricam os equipamentos já sondam o mercado brasileiro buscando entender a regulação. Atualmente não há regras sobre o segmento nem como seu custo seria repartido. “Esse é um mercado com grande potencial de crescimento”, diz Fabiano Brito, sócio da área de infraestrutura do Mattos Filho Advogados.

O interesse atrai comercializadoras também. A Comerc montou uma parceria com a MicroPower Energy, fundada pelo ex-vice-presidente da Tesla Energy, Marco Krapels. A empresa está trazendo ao Brasil um serviço de armazenamento de energia elétrica em baterias sem a necessidade de investimento pelo cliente. A ideia é que a solução possa ser aplicada como alternativa à geração na ponta – quando o custo é mas alto na rede básica -; para redução da demanda, permitindo reduzir o consumo ou para funcionar em caso de apagão.

„Esse segmento , eficência e armazenamento poderão responder por 20% da receita em cinco anos”, diz Cristopher Vlavianos, presidente da Comerc, comercializadora que estria nessa área.

Na área de distribuição, a tecnologia pode criar novas maneiras de operar a rede. A CPFL Energia está executando seu maior programa de investimentos em pesquisa e inovação, com o objetivo de entender mais da tecnologia. A concessionária irá investir R$60 milhões em três projetos de armazenamento de energia ligados ao programa de Pesquisa e Desenvolvimento da Aneel. Um projeto se refere a armazenamento em um parque eólico, outro está ligado à usina solar de Tanquinho, primeiro investimento da empresa do setor, e o terceiro à geração distribuída e aos impactos sobre a rede de distribuição. “Com a maior intermitência das fontes na matriz, as baterias podem ser usadas para melhorar a qualidade do abastecimento das redes de distribuição, para reduzir a oscilação de tensão”, diz Kari Luchesi, vice-presidente de Operações de Mercado.

A Enel também investe na área. Cerca de 300 residências de um condomínio de alto padrão próximo a Fortaleza (CE) terão sua estrutura elétrica interna transformada em uma microrede autônoma, capaz de funcionar conectada ou não à rede elétrica da distribuidora. O projeto une três principais conceitos tecnológicos: geração distribuída, com a presença de plantas fotovoltaicas e um parque eólico já existente na região; armazenamento da energia para uso quando necessário; e redes inteligentes, com a automação da rede elétrica, automação de cargas prioritárias das unidades consumidoras do condomínio e softwares de gestão. “O objetivo do projeto é transformar a estrutura elétrica interna de um condomínio de casas numa microrede autônoma, capaz de funcionar conectada ou não à rede elétrica da Enel Distribuição Ceará, graças ao armazenamento de energia, diz o presidente da empresa, Carlo Zorzoli

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Setor elétrico: concessionárias precisarão se adpatar ao novo mercado não regulado

Sistema Inteligente

Do Valor Econômico, por Roberto Rockman

Em junho e julho, pesquisadores saíram às ruas de Cataguases, sul de Minas Gerais, para conversar com a população e a prefeitura e iniciar um estudo sobre a implementação do conceito de cidade inteligente novo município de 70 mil pessoas.

Além de avaliar a possibilidade de instalação de medidores e iluminação pública inteligentes, microgeração distribuída solar, sistemas de armazenamento e mobilidade urbana com bicicletas e veículos elétricos, o projeto, com conclusão prevista para setembro, busca analisa as oportunidades com o avanço da tecnologia.

A ideia é que a partir do próximo ano, sejam colocadas em prática na cidade os primeiros projetos pela Energisa, concessionária local, afirma o gerente de inovação da empresa, Gilson Paulillo.

As novas tecnologias, que prometem revolucionar o setor elétrico, estão na pauta prioritária do setor. O consumidor deixará de ser uma figura passiva: com os medidores inteligente e a instalação de painéis fotovoltaicos, ganha novo poder no sistema, como microgerador.

As concessionárias terão de se adaptar a esse novo mundo, em que uma parcela crescente da receita virá do mercado não regulado. O desafio do País será criar uma regulação que incentive essas tecnologias, mas não onere ainda mais as tarifas. “A equação se tornaria mais fácil com a redução de tributos, mas a crise fiscal, que deve continuar apertando as contas da União e Estados nos próximos quatro anos, dificulta isso”, destaca Daniel Martins, sócio da consultoria Roland Berger

Parte mais visível da revolução, os mediadores inteligentes ainda ensaiam os primeiros passos no Brasil, com projetos baseados no programa de Pesquisa e Desenvolvimento da Aneel. A CPFL Energia decidiu, em março, que seu projeto piloto de medidores inteligentes para baixa tensão será em Jaguariúna (SP). Para que a inovação ganhe escala, o setor demanda incentivos. “Será preciso resolver questões regulatórias, o reconhecimento na tarifa é dado apenas na revisão periódica, que ocorre a cada quatro a cinco anos, com uma tecnologia que demanda investimento intensivo em dez anos ou mais. É preciso reconhecer que elas podem acelerar a adoção de carros elétricos ou de microgeração distribuída”, diz Caio Malagoli, diretor de engenharia da empresa.

A reforma do setor elétrico não trata do tema, mas a Aneel poderá rever, em 2019, a metodologia do custo de capital das concessionárias para as rodadas de revisões periódicas de tarifas da próxima década. As empresas discutem como criar mecanismos que incentivem em novas tecnologias.

Para Carlo Zorzoli, presidente da Ennel, que recentemente adquiriu o controle da AFS no Brasil, a digitalização ocorre em três movimentos. Primeiro, é feita a instalação de alguns elementos digitais na rede, o que permite um conhecimento mais preciso do estado da rede, em comparação ao padrão histórico. O segundo movimento é obtido com as redes inteligentes e a instalação dos medidores que leem o consumo e podem mostrar quanto o consumidor gera de energia. O terceiro nível está ligado à existência de uma série de sensores na rede que, junto aos medidores eletrônicos e aos equipamentos da digitalização básica, permitem acompanhar a condição dos equipamentos, como a temperatura dos transformadores, alinhado à análise de dados. “O que separa o Brasil desta segunda etapa de digitalização é a questão regulatória, já que não se reconhece o valor investido pelas empresas na adoção de medidores eletrônicos”, afirma Zorzoli.

Uma parte da regulação também está sendo tratada no Projeto de Lei 1917, que tramita no Congresso e prevê ampliação do mercado livre e alguns aperfeiçoamentos que podem incentivar novas tecnologias. “O projeto traz alguns direcionadores importantes para maximizar o valor de ativos como as hidrelétricas. A  precificação da eletricidade em base horária e da capacidade de atendimento à ponta e rampa devem trazer novas oportunidades, observa Eduardo Sattamini, presidente da Energie Brasil Energia

A operação do sistema será mais complexa, o que exigirá mais tecnologia. O horário de maior consumo migrou da novela das 21 horas para o meio da tarde, quando o acionamento do ar condicionado é intenso nos escritórios. As hidrelétricas, que há 25 anos respondiam por 90% da geração, hoje respondem por cerca de 60%. Em 19 de agosto, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) registrou novo recorde horário de geração eólica, atendendo 98% da demanda do Nordeste.

A geração distribuída será mais presente. “Haverá incertezas climáticas, necessidade de previsões sobre temperaturas, irradiação, ventos, chuvas e uma tendência de que o mercado livre aumente e o consumidor ganhe mais poder, com as distribuidoras ganhando mais autonomia e tendo novas funções nesse contexto”, destaca Gilberto Figueira, líder empresarial da Macroplan, que recentemente entregou estudo de planejamento estratégico para o ONS.

No Brasil, estima-se crescimento de 3,7% ao ano do consumo de energia elétrica até 2026, de acordo com dados da Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE). Geração distribuída com painéis fotovoltaicos deve ganhar espaço na matriz. Segundo projeções do governo, a capacidade instalada do setor pode crescer mais de dez vezes nos próximos dez anos, para 3 GW de potência instalada.

Redes de farmácias, escolas, hospitais, agências bancárias estão começando a analisar investimentos no setor, de olho na redução da conta de energia. A recente onda de reajustes de concessionárias, acima de dois dígitos, aqueceu o segmento, diz o presidente da AES Tietê, Ítalo Freitas. “Contatos que foram feitos há um ano, agora voltaram a ser discutidos pela alta de custos”, relata.

Sistemas de armazenamento também ganharão escala, seja em grandes consumidores, interessados em melhorar a qualidade do abastecimento e reduzir oscilações na rede, seja em distribuidoras. “Claramente, o armazenamento terá um papel importante e poderá se de forma concentrada, com usinas de armazenamento, ou de forma distribuída , em que, por exemplo, dezenas de milhares de carros elétricas poderão fornecer serviços de armazenamento e balanceamento quando conectados a uma rede de distribuição inteligente. No último caso, o mesmo consumidor residencial poderá atuar dessa forma quando possuir um medidor inteligente”, diz Zarzoli, da Enel