Priorizar o transporte público, aumentando o número de vias expressas para ônibus e melhorando a qualidade do transporte coletivo. Essas políticas vêm sendo refletidas em Belo Horizonte, como resultado do Plano Estratégico da BHTRANS - empresa responsável pelo transporte urbano da capital mineira, uma das cinco cidades brasileiras com mais de um milhão de veículos circulando nas ruas. A consultora e gerente de projetos Betania Dumoulin que esteve à frente da elaboração do Plano Estratégico da BHTRANS fala nesta entrevista sobre soluções para o intrincado problema da mobilidade urbana que afeta todos os grandes centros do pais. 1)Transitar pela cidade é um desafio cada vez maior. Superlotação, excesso de carros... Sua experiência no planejamento da empresa de transporte e trânsito urbano em Belo Horizonte revela que é possível superar estes problemas?
Betânia Dumoulin - Não é algo simples, mas o governo municipal de Belo Horizonte acertou ao buscar no planejamento estratégico alternativas para este problema. A prefeitura em seu Plano Estratégico enfatizou o tema da mobilidade, com foco na integração das redes, no gerenciamento da demanda e no aumento da qualidade e diversidade dos serviços de transporte público. A BHTRANS, alinhada com as diretrizes estabelecidas para o futuro da cidade seguiu o mesmo caminho e decidiu se planejar para encarar de frente os problemas da mobilidade urbana em Belo Horizonte. Esse é o ponto de partida: orientar as ações para objetivos e resultados que estão pautadas por indicadores de desempenho e metas.
2) O que se destaca neste planejamento?
Betânia Dumoulin - O processo de planejamento na BHTRANS envolveu mais de uma centena de pessoas de várias áreas de conhecimento - diretores e gestores da empresa, especialistas em mobilidade urbana, jornalistas, usuários do transporte público e membros do Judiciário, Legislativo e do Executivo - que forneceram uma visão abrangente sobre o problema. Neste trabalho, a questão foi muito além do problema do deslocamento. Os projetos da BHTRANS estão sustentados em seis grandes objetivos: o desenvolvimento de transportes públicos mais atrativos, o foco na qualidade, a segurança no trânsito, a garantia de intervenções positivas para o meio ambiente, a contribuição da mobilidade para a inclusão social e sua relevância para o ambiente de negócios.
3) Mas são programas emergenciais ou preventivos?
Betânia Dumoulin - São projetos transformadores. Do ponto de vista da gestão, a idéia foi colocar a BHTRANS em outro patamar de desempenho e transformá-la em uma empresa mais ágil e inovadora e de fato orientada para resultados. Com relação à mobilidade urbana, entre as mudanças mais significativas, se destaca a decisão de explicitar o direcionamento da empresa para as pessoas e não para os carros. A ideia do plano é contribuir para a melhoria da qualidade de vida em Belo Horizonte.
4) E como fazer isto acontecer na prática?
Betânia Dumoulin - A solução é a oferta de serviços de transporte coletivo de qualidade para aumentar a sua competitividade. Enfrentamos hoje um paradoxo que são os diversos incentivos para a compra do automóvel, e, ao mesmo tempo, o estímulo de políticas governamentais para o transporte coletivo. Mas promover a fluidez dos veículos privados não pode mais ser o objetivo das políticas nas cidades desenvolvidas. A ideia é dar mais espaço aos corredores exclusivos de ônibus, conhecidos pela sigla em inglês BRT (Bus Rapid Traffic). Esta é a saída que as cidades têm adotado no Brasil - por ser mais simples e mais barato. Contudo, as BRTs não resolvem sozinhas o problema. É preciso adotar também medidas que restrinjam o uso do carro particular. Também é necessário investir em um sistema de transporte inteligente que permita a melhoria do fluxo de circulação, com informação em tempo real sobre a situação do trânsito, painéis eletrônicos com horários e tempos de chegada e saída dos transportes coletivos e controle inteligente de semáforos. E, claro, não se pode fazer isso oferecendo como alternativa um transporte público de baixa qualidade. O investimento, no transporte coletivo é fundamental. Agora, a cidade estará enxugando gelo se o olhar estiver voltado apenas para o município. Nesta questão é preciso olhar também para o entorno e pensar em soluções integradas com as cidades vizinhas.
5) O que dificulta a integração?
Betânia Dumoulin - Hoje em dia a gestão da mobilidade é uma obrigação do município. Só que as empresas de transporte têm linhas municipais e intermunicipais. A integração dos modos e o bilhete único são um desafio, pois se lida com empresas e interesses diferentes. O planejamento exige uma comunicação entre governo do estado, municípios e empresas. Em Belo Horizonte esta visão pode ajudar a melhorar e a mitigar os problemas enfrentados. A boa gestão da BHTRANS terá impactos diretos na vida do cidadão metropolitano.