
A Macroplan divulgou, esta semana, a revisão do estudo de cenários ambientais para o período 2010-2050. "A revisão do estudo reflete a crise econômica internacional e o fracasso da negociações de Copenhague e veio em linha com as nossas expectativas", disse o diretor da Macroplan, Alexandre Mattos de Andrade, para quem uma mudança drástica no comportamento da população mundial no que se refere ao uso da energia fóssil e a interrupção do desmatamento na Amazônia são pressupostos para reduzir o aquecimento global do planeta. "Quanto mais tarde conseguirmos reverter a curva de emissões, maiores serão os efeitos climáticos e mais difícil será equilibrar o quadro ambiental", alerta o diretor.
O estudo da Macroplan pressupõe dois cenários opostos para a questão ambiental para o horizonte de 40 anos. O primeiro ( "Salto para o Futuro"), mais otimista, em que as soluções para a redução de emissões se multiplicam, criando modelos de negócios. Já o segundo ("Crescimento Inercial"), bem mais provável, é aquele em que a inércia domina e observa-se somente o engajamento retórico no combate ao aquecimento global.
Segundo o estudo de cenários da Macroplan os próximos 40 anos serão o ápice de um tempo de grandes mudanças, com a população mundial alcançando 9 bilhões de habitantes. "A única saída válida para a agenda climática mundial passa por um aumento análogo na produtividade dos recursos naturais ao que a revolução industrial produziu com o trabalho", avalia o diretor da Macroplan. Mattos de Andrade ressaltou que desde a revolução industrial, a produtividade do fator trabalho se multiplicou por mais de uma centena de vezes, como efeito da formação de capital, do desenvolvimento tecnológico e avanços na organização social e empresarial. Segundo o estudo da Macroplan, de 1945 aos dias de hoje, o consumo humano de água multiplicou-se em três vezes; o consumo humano de petróleo foi multiplicado em oito vezes; a base florestal mundial reduziu-se em 20% e o homem passou a fazer usos intensivos dos recursos naturais. "As mudanças climáticas são um efeito da revolução industrial em escala global".
Já no Brasil, a questão climática está fortemente associada à questão florestal e ao uso do solo, mais do que em qualquer outro país, segundo o diretor da Macroplan. Houve uma redução do bioma atlântico em 90% em 500 anos de ocupação e, no cerrado, ocorreu o mesmo fenômeno iniciado na década de 70. O desflorestamento da Amazônia, com a transformação dos estoques de carbono - existente na forma de árvores, plantas e microorganismos - em dióxido de carbono na atmosfera, assim como as queimadas e uso do solo, fazem do Brasil um dos maiores emissores de gases de efeito estufa per capita do mundo, ficando pouco atrás dos EUA (Brasil - 15 tons CO²E/per capita ; EUA 23 CO²E/per capita). "O Brasil, no século XXI, assumiu os papéis de "Fazenda" - pela disponibilidade de terra, água doce e sol - e de "Mina"- principalmente pelo minério de ferro e petróleo. Exporta recursos para a economia mundial e importa impactos ambientais", alerta Mattos de Andrade. Segundo o especialista, se o Brasil quiser participar de forma efetiva do esforço do problema climático mundial será preciso parar de desmatar a floresta amazônica nos próximos 15 anos.
Existem quatro grandes frentes no Brasil que poderão fazer a diferença para o futuro, de acordo com o estudo da Macroplan. A primeira é a capacidade do Governo de fazer a lei ambiental ser cumprida, associada a investimentos de tecnologias de controle e fiscalização. A segunda está na capacitação e formação de pessoas habitam e exploram o território amazônico, para que possam superar a pobreza e gerar riquezas de formas concorrentes à exploração predatória dos recursos florestais. A terceira é a promoção e o incentivo da competição econômica pela devida remuneração de serviços ambientais, "fazendo valer a floresta em pé". Mattos de Andrade cita como exemplo o pagamento aos donos de terra para manter suas nascentes intactas ou por outros serviços ambientais relacionados com a exploração da biodiversidade ou do turismo. A quarta frente está no campo tecnológico e se refere às inovações que permitam o aumento da produtividade dos recursos naturais e energéticos.