Emprego na idade do ferro

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14/12/2011 | Exame
Ouro Preto: como o setor de mineração é pouco intensivo em mão de obra, a meta é diversificar a economia
Há 250 anos, a região de Vila Rica, em Minas Gerais, era o epicentro da prosperidade brasileira graças à exploração do ouro. Guardadas as proporções, a região dos inconfidentes, rebatizada em 1823 de Ouro Preto (e que compreende também as cidades de Mariana, Itabirito e Diogo de Vasconcelos), vive um novo boom de crescimento, impulsionado por outro minério, o ferro. Atualmente, um quarto do ferro produzido no Brasil sai da região de Ouro Preto, principalmente de oito minas de três empresas: Vale, Samarco (sociedade da própria Vale com a australiana BHP) e Gerdau. Em 2010, foram extraídas cerca de 90 milhões de toneladas, a maior parte exportada para a China.

Graças ao crescimento da mineração, o PIB da região de Ouro Preto avançou, em termos nominais, mais de 400% entre 1999 e 2008, a maior taxa de Minas Gerais. Há dois anos, a Vale inaugurou unidades em Itabirito e Nova Lima, com investimentos de 2,3 bilhões de reais. A Samarco, segunda maior produtora de ferro do país, vem crescendo de forma ainda mais agressiva. Em 2008 aumentou sua capacidade produtiva em 54%. Neste ano, iniciou uma nova fase da expansão, que deve consumir 5,2 bilhões de reais até2014. O projeto inclui mais um mineroduto para transportar o ferro da região de Ouro Preto ao porto de Ubu, no Espírito Santo. Ao final das obras, a empresa terá condições de produzir 33% mais do que hoje. A BHP, maior mineradora do mundo, já opera como sócia na Samarco, mas vem realizando estudos geológicos com a possibilidade de ampliar os negócios.

O ritmo das mineradoras está diretamente ligado à velocidade de expansão de muitas empresas locais. Com sede em Ouro Preto, a Hexágono Engenharia, que presta serviços de hidrologia e manutenção predial para as mineradoras, saiu de um faturamento de 2 milhões de reais em2004 para22 milhões de reais neste ano. O Cooperouro, maior supermercado da região, depois de 30 anos operando com uma única loja, abrirá uma filial em Mariana em 2012. As redes varejistas Magazine Luiza e Ricardo Eletro já operam na região, ambas com lojas em Itabirito. Recentemente, a Ricardo Eletro anunciou que abrirá mais uma loja, desta vez em Mariana, no início de 2012.

Entre as cidades da região, Ouro Preto é a que tem a economia mais dinâmica. O turismo cultural - herança do passado colonial - atrai cerca de 530000 visitantes à cidade por ano. O número de alunos da Universidade Federal de Ouro Preto dobrou nos últimos quatro anos, atingindo 10 000 estudantes. Metade deles é oriunda de outras cidades ou estados, movimentando o comércio e o mercado imobiliário. Essa é uma ótima notícia. "O grande desafio da região é desenvolver outros setores para não depender apenas da mineração", afirma o ex-ministro da Fazenda Paulo Haddad, especialista em economia mineira.

A política de buscar investimentos de outros setores tem a ver com a preocupação em criar postos de trabalho. Estima-se que as mineradoras empreguem 7000 pessoas na região. O atual projeto de expansão da Samarco levará 4200 trabalhadores para a região durante as obras, mas, quando concluído, criará apenas 500 empregos. O uso pouco intensivo da mão de obra é fruto da mecanização das minas e do transporte de minério por dutos, que se provou muito eficiente e dispensa a instalação de siderúrgicas próximas da área de mineração. "As siderúrgicas preferem ficar perto de seus clientes ou dos portos", afirma Claudio Porto, da consultoria de estratégia Macroplan.

Hoje, um dos maiores desafios para os gestores de cidades da região de Ouro Preto é encontrar formas de crescer gerando empregos de qualidade. Com os cofres reforçados com impostos pagos pela mineração, a prefeitura de Itabirito convenceu a Femsa, maior engarrafadora da Coca-Cola do Brasil, a instalar uma fábrica na cidade. Em troca, prometeu realizar obras necessárias para garantir o suprimento de água da unidade, que deve ser inaugurada até o final de 2012. "Nossa meta é aproveitar a mineração para movimentar o restante da economia", afirma Manoel da Mota, prefeito de Itabirito, cidade onde metade da arrecadação municipal é hoje proveniente da extração de minérios. Com o fim do ciclo do ouro, Ouro Preto entrou em decadência - e não quer repetir o roteiro quando o ciclo do ferro também chegar ao fim.

 


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