Quem afirma é Rodrgo ventura, economista e consultor da Macroplan, ao analaisar o cenário econômico do ano passado e fazer projeções para 2010e 2011
TN Petróleo ?- Saímos da crise?
Rodrigo Ventura - Pode-se dizer que o momento mais agudo da crise já faz parte do passado, mas economia mundial ainda apresenta fatores de risco que não nos permitem desconsiderar um cenário de ?recaída?. Nos países emergentes a situação é mais confortável, mas ainda assim existem riscos: a regulação no cenário internacional ainda é frágil, o que aumenta o risco de bolhas.
Qual a avaliação dos impactos até agora, sobretudo no Brasil?
O Brasil empreendeu uma bem sucedida travessia da crise, com grande destaque para a atuação do Banco Central (que criou um padrão) e para os esforços de dinamização do consumo em massa. O desempenho do mercado interno brasileiro foi o principal responsável para que o Brasil tenha sido um dos últimos países a entrar na crise e um dos primeiros a sair dela. Ao longo do ano de 2009,a demanda agregada da economia brasileira manteve-se aquecida, favorecida pela preservação da renda real das famílias, pela redução da inflação e pela melhora nas condições do mercado de crédito. Assim, apesar da crise, foram gerados quase 1 milhão de novos empregos formais em 2009, já descontados os desligamentos. Decorre daí a expectativa quanto a um cenário positivo para 2010.
É possível desenhar um cenário ideal para 2010?
O crescimento da economia brasileira parece já estar contratado (entre 5% e 6,5%) e a maioria das previsões aponta para uma geração de mais de 1,5 milhão de novos empregos formais ao longo do ano. É esperada ainda a expansão do crédito e do consumo. O ambiente de fortalecimento da demanda interna e de retomada gradual da atividade econômica mundial se expressa, ainda, na recuperação dos investimentos. Projeta-se aumento dos investimentos tanto privados quanto de empresas estatais e de governos estaduais e municipais.
O que precisamos torcer para acontecer e qual seria o pior cenário?
Fatores de risco existem e não podem ser ignorados. Nos Estados Unidos e na Europa, o desemprego ainda é alto e o mercado imobiliário não mostra sinais sólidos de estabilização. Assim, para 2010 espera-se baixo dinamismo nas chamadas economias maduras (EUA , Europa e Japão), reduzida geração de empregos e estagnação do consumo. A China, mais uma vez, será o principal motor da atividade mundial, devendo manter sua moeda desvalorizada e uma posição de forte competitividade nos mercados em que atua.
Quais os riscos maiores para o Brasil?
No Brasil, potenciais entraves a um perfeito aproveitamento de 2010 são, em primeiro plano, pressões inflacionárias - que podem conduzir a uma elevação dos juros - e pressões na balança comercial, com aumento do déficit em transações correntes. Contudo, por se tratar de ano eleitoral, o maior risco para o período é o de afrouxamento fiscal.
O que podemos esperar de 2010 levando em consideração o período eleitoral?
O Brasil tem uma economia mais sólida e menos vulnerável do que em períodos eleitorais anteriores, como 1998, 2002 e 2006, por exemplo. Turbulências nos mercados existirão, mas dificilmente exercerão sobre o cenário político e econômico o papel que tiveram em momentos passados. O maior risco é o de afrouxamento fiscal. Em 2009, o superávit primário do setor público foi pouco superior a 2% do PIB, abaixo da meta fiscal para o ano. Mantida a atual tendência de expansionismo fiscal, acentuam-se os riscos de desequilíbrio das contas públicas nos próximos anos. A conta chegará, em algum momento. E tudo indica que caberá ao próximo governo
arcar com as consequências disto.