Brasil deu passos importantes, mas os desafios estão pela metade

[-] Texto [+]
29/01/2012 | Correio Braziliense
Gabriel com o padrasto, Telmo, a mãe, Kelly, e a irmã Maria Clara. O menino já traçou o seu destino: quer ser engenheiro, ter um bom salário e comprar uma casa e um carro
Série de reportagens mostra, a partir de hoje, os contrastes de um país que venceu uma inifinidade de obstáculos nos últimos 20 anos para se tornar a sexta economia do planeta. Especialistas avaliam o que precisa ser feito nas próximas décadas para o Brasil ostentar qualidade de vida de Primeiro Mundo. Uma conquista já pode ser comemorada: a possibilidade de fazer planos. O menino Gabreil Guedes, 12 anos, vai lutar para realizar o sonho de ser engenheiro e construir aviões

 

O menino Gabriel Gustavo Guedes tem sonhos concretos. Aos 12 anos e cursando a 6ª série, o brasiliense, morador do Guará, quer se tornar engenheiro pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) para construir aviões. O estudante sabe que o esforço e a dedicação serão enormes, mas, determinado, já traçou o próprio futuro: formar-se, trabalhar bastante e ter uma renda estável para comprar uma casa e um carro.

Há 20 anos, sonhos de longo prazo como os do jovem seriam inviáveis. O padrasto de Gabriel, Telmo Martins Ribeiro, 46 anos, sabe muito bem disso. Já adulto, virava-se como podia em uma economia dominada pela hiperinflação, praga que impediu a várias gerações terem as mesmas perspectivas do enteado. "Nosso pensamento era sempre emergencial. Uma inflação monstruosa corroía a renda. Só pensávamos no dia seguinte", lembra. "A geração atual não está preocupada com o que terá na mesa do jantar, o que era uma dúvida recorrente na minha época. Hoje, eles podem pensar no futuro, ter horizontes, fazer planos de consumo", diz.

Telmo e Gabriel são o retrato das profundas transformações vividas pelo Brasil nas últimas duas décadas e dos desafios que ainda estão por ser enfrentados. Telmo reconhece a árdua batalha para que o país saísse do atoleiro e deixasse de ser sinônimo de desemprego e desigualdade social. Gabriel está pronto para tirar proveito de uma economia que, até 2015, será a quinta maior do planeta e tem tudo para desfrutar de um nível de renda de Primeiro Mundo. São os contrastes desses dois Brasis que o Correio mostrará a partir de hoje, por meio de uma série de reportagens.

Para não perder as oportunidades que estão escancaradas, o país terá de assumir que as mudanças iniciadas no início dos anos 1990, com a abertura da economia aos importados pelo governo Collor, ainda estão no meio do caminho. "Infelizmente, temos um Brasil do atraso convivendo com um Brasil do futuro. A hora de enterrarmos o que ainda resta de ruim é agora", sentencia o economista Claudio Porto, presidente da Consultoria Macroplan. E é justamente em jovens pragmáticos como Gabriel que ele deposita toda a confiança de que as chances de sucesso realmente existem e não se transformarão em frustração.

"A juventude atual vive o que chamamos de saudável impaciência social. Estamos falando de jovens mais maduros, mais bem-educados e informados, com altíssimo nível de aspirações", afirma Porto. "Eles tenderão a tirar os governos do comodismo. Vão usar as informações dos tradicionais meios de comunicação para cobrar avanços no país por meio das redes sociais", acrescenta. No entender do economista, em vez do foco no combate à pobreza, o Brasil terá que distribuir riqueza, atender a demandas cada vez mais sofisticadas, que vão muito além do pão de cada dia. "Por isso, estou tão esperançoso", enfatiza.

Distorções

A lista das conquistas do Brasil é enorme. Em 20 anos, além de ter debelado uma inflação galopante, o país ampliou o mercado de trabalho, inseriu mais de 40 milhões de brasileiros na classe média e reduziu, de forma substancial, a miséria. Ao mesmo tempo, ressalta o economista Ruy Coutinho, presidente da Consultoria Latinlink, mantém um dos mais pesados custos de vida do planeta - 6,5% ao ano. As oportunidades de emprego são menos favoráveis às mulheres, aos negros e aos pardos. O nível de educação é insuficiente para uma economia moderna e mais da metade da população nem sequer tem acesso a sistemas de esgoto.

Para piorar, o país tem uma das mais pesadas cargas tributárias do mundo - somente o governo federal tirou quase R$ 1 trilhão do bolso dos brasileiros em 2011 -, com baixíssima reversão à sociedade. A população convive com uma corrupção entranhada em todos os poderes, que sugam ao menos R$ 70 bilhões por ano. "Essa é a face de Terceiro Mundo que nos joga para baixo. Mas apenas uma sociedade organizada, atuante, poderá mudar a história", destaca Coutinho. "Essa sociedade terá de cobrar um Estado mais eficiente, enxuto, que priorize os investimentos em infraestrutura, tão necessários para garantir o crescimento sustentado da economia."

Mesmo sem a noção exata dos desafios que estão por ser vencidos, o jovem Gabriel leva o futuro a sério. A determinação em cursar engenharia é reflexo de uma paixão pela aeronáutica cultivada desde bem pequeno pelo pai, paraquedista. Sempre ligado nos canais científicos da tevê, o menino, com suporte em pesquisas na internet, faz as próprias experiências. "Construo paraquedas com sacolas plásticas. Desmonto e reconstruo todos os meus aviões e helicópteros de brinquedo", conta.

Apesar da forte convicção de Gabriel, os pais temem pelo futuro do menino e dos dois irmãos, de 6 e 22 anos. "Temos uma economia estável, com uma moeda forte, que permite às pessoas satisfazerem não só as necessidades básicas, mas também alimentar os luxos", explica o padrasto. "A juventude de hoje é exposta, muitas vezes sem preparo, a um universo de consumo e a uma quantidade de informações enormes. A nossa missão será prepará-los para tirar o melhor proveito possível do que lhes será oferecido", completa a mãe, a vendedora Kelly Guedes, 33. Para ela, a batalha dos últimos 20 anos não poderá ter sido em vão.

Esta matéria faz parte de uma série de reportagens realizada pelo Correio Braziliense. Para ler as outras matérias da série, clique nos links a seguir:

Demora em concessões impõe um custo elevado ao desenvolvimento do país

Juros travam a indústria

 


Comentar | 0 Comentários